Shawn Craham: “Eu perdi meus pais e não foi tão difícil como perder Paul”

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“Eu não costumo deixar as pessoas me verem chorar”, diz o percussionista Shawn Crahan, do Slipknot, com naturalidade. “É muito difícil. Mas quando eu ouvi o que Corey Taylor cantou na música ‘XIX’, eu chorei e chorei e chorei. Doía demais.”

“XIX” é o canto fúnebre que começa o .5: The Gray Chapter, quinto álbum de estúdio dos ameaçadores mascarados do metal, primeiro desde a morte de seu amigo e companheiro de banda Paul Gray, ocorrido em 2010. Crahan, mais conhecido por usar uma máscara de palhaço ensanguentada e convulsionar seu corpo durante os shows frenéticos da banda, tinha construído a faixa como um elogio de três minutos para Gray, baixista fundador do grupo, que morreu de uma overdose acidental de morfina e fentanil analgésico. Crahan falou as palavras de abertura da canção: “”This song is not for the living; this song is for the dead”. (Esta música não é para os vivos, é para os mortos) Mas são as letras que o vocalista Corey Taylor escreveu que o levou às lágrimas: “Walk with me, just like we should have done right from the start/Walk with me, don’t let this fucking world tear you apart” (Caminhe comigo, assim como deveríamos ter feito desde o início/Caminhe comigo, não deixe que a droga desse mundo acabe com você).

Pela primeira vez em quatro anos desde que o seu colega de banda morreu, os músicos – cujas fachadas assustadoras desmentem homens profundamente emocionais, quase prejudicadas pela perda de seu amigo – voltaram finalmente a trabalhar juntos em uma nova música. Em última análise, eles fizeram um álbum que faz uma homenagem a Gray enquanto mantém a hostilidade pesada e fervilhante que seus fãs adoram – muitas vezes ao mesmo tempo. Enquanto seus álbuns anteriores os colocaram apontando os dedos do meio para o mundo, .5: The Gray Chapter é o álbum mais focado até então. Além disso,por causa de tudo o que eles passaram, é por muitas vezes o mais pesado – tanto musicalmente quanto emocionalmente.

“Esteve sempre na minha cabeça que isso ia ser a história dos últimos quatro anos”, diz Corey Taylor, 40 anos, cujo sotaque do meio oeste americano sugere audaciosa confiança, mesmo quando ele está com a guarda baixa. “Sabíamos que ia ser pesado. Sabíamos que seríamos perguntados se estávamos preparados para ser tão honestos. Mas nós nos permitimos chegar a esse ponto.”

“Finalmente, depois de quatro anos, nós olhamos um para o outro e dissemos: ‘Ei, vamos chorar. Vamos nos ferir. Nós vamos ficar com raiva”, diz Shawn Crahan, 45. “Tiramos isso pra fora, e me senti bem.”

Antes do .5: The Gray Chapter, a emoção que o Slipknot fazia melhor era a pura raiva sarcástica. Quando o grupo lançou seu primeiro álbum amplamente distribuído, Slipknot, em 1999, os membros da banda saíram como crianças terríveis, lançando seus corpos em toda a MTV, no auge da crista definitiva do nu-metal, fazendo rap e rosnando o ódio e frustração em seu arrasador single “Wait and Bleed”. Embora o grupo de nove pessoas – cujos membros incluíam além de Corey Taylor, Shawn Crahan e Paul Gray, os guitarristas Mick Thomson e Jim Root, o percussionista Chris Fehn, Craig Jones nos samples, DJ Sid Wilson e o baterista Joey Jordison – tenha vindo de Des Moines, seus macacões, máscaras caseiras de Halloween e canções como “People=Shit” rivalizavam com qualquer bicho-papão que Stephen King poderia inventar.

Através dos 15 anos, o grupo – como pares como Linkin Park e Korn – se firmou como uma banda de interesse dos Moshers e se afastou do rap-metal. Desde o início, o Slipknot despertou os ouvidos de seus fãs com agressivos e latejantes singles como “Duality” e “Psychosocial” e brincou com suas curiosidades com contos selvagens dos bastidores sobre como manter aves mortas em frascos para facilitar mais o vomitar pela máscara. Com tudo a funcionar em conjunto, o Slipknot já vendeu mais de 16 milhões de cópias com seus quatro álbuns e vários lançamentos em vídeo, ganhou um Grammy pela Melhor Performance de Metal para a canção “Before I Forget” e conseguiu um álbum número 1 nas paradas com seu LP mais recente, All Hope Is Gone, de 2008.

Por toda a sua carreira, a banda manteve uma trajetória ascendente, mas tudo mudou no dia 24 de maio de 2010, o dia em Paul Gray foi encontrado morto em um quarto de hotel em Des Moines, Iowa. O baixista sempre comentou sobre suas lutas com abuso de drogas ao longo dos anos, mas, no momento da sua morte, ele parecia estar limpo. A viúva do baixista, Brenna Gray, informou que ele estava, nos meses após seu último show com a banda, no Halloween de 2009, livre de drogas. Ela encontrou uma agulha hipodérmica uma semana antes dele morrer, alertou o médico, e em seguida, encontrou um saco de agulhas no dia antes da morte, de acordo com um comunicado ao tribunal feito no início deste ano. Ela o confrontou sobre isso e cancelou sua turnê com grupo de metal Hail, que fazia covers . Mas então sua morte aconteceu repentinamente. “Ele estava doente e nenhum de nós sabia disso”, disse Brenna à revista Revolver poucos meses depois de sua morte (veja entrevista completa aqui). “Eu acho que a coisa mais perturbadora para mim foi que eu não sabia. Porque eu sempre soube, e eu sempre o trouxe de volta quando as coisas estavam começando a tomar um rumo. Mas desta vez eu não consegui… O que estava acontecendo na vida dele? Eu não tenho nenhuma ideia, nenhuma pista.”

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“Eu perdi meus pais e não foi tão difícil como perder Paul” – ShawnCrahan

O choque da morte de Gray acertou em cheio o grupo. “Há tantas etapas para lidar com a dor”, diz Corey. “Há uma avalanche maldita, uma montanha-russa que vem com isso, onde há dias que você não entende por que você está chorando assistindo a droga de um comercial sobre seguro de carro, e você fica como: ‘Mas que diabos!’ Você fica tipo: ‘De onde veio isso?’ Todas estas coisas de forma lenta, mas segura, percorrem o seu caminho até a superfície.”

“Paul me ensinou muito, ele é o resultado final”, diz Crahan. “Eu perdi os meus pais e não foi tão difícil quanto perder Paul, porque você tem toda a sua vida com eles – você sabe que isso vai acontecer um dia. Com Paul sendo meu melhor amigo, eu não imaginava isso.”

Enquanto viviam seus lutos pessoais, os membros da banda voltaram sua atenção para projetos paralelos por mais de um ano. Finalmente, em junho de 2011, eles estavam prontos para retomar como Slipknot, e eles contrataram um guitarrista de uma das primeiras formações da banda para tocar no backstage enquanto a máscara, macacão e baixo de Gray ficavam exibidos ao público no palco. Mas, mesmo assim, a maioria dos membros da banda dizia que não estava interessada ??em fazer um novo álbum tão cedo.

Taylor afirma que o que levou tanto tempo para o Slipknot começar a escrever um álbum foi falta de comunicação entre os vários membros do grupo. “Estamos mais para um time de futebol zoado do que para uma banda”, diz ele com uma risada. “Eu acho que acabou acontecendo de forma espontânea. Um dia, nós apenas começamos a conversar e era como: ‘Bem, eu tenho algumas coisas.’ E começamos a trocar ideias uns com os outros. Estar na mesma página pode ser muito difícil com essa banda, mas isso só veio a partir de conversa.” Enquanto eles se reconectavam, perceberam que eram realmente capazes de fazer um álbum e que isso era o certo pelo seu saudoso amigo.

Mas antes que isso acontecesse, a banda teve que passar por mais uma dificuldade pessoal. Em dezembro de 2013, o Slipknot anunciou que “com grande dor, mas silencioso respeito ” estavam se separando de Jordison, o homem cujas contribuições nas composições e estilo destruidor na bateria era uma parte definitiva do som da banda desde o início. Após a notícia, Jordison divulgou um comunicado para explicar que ele havia sido demitido. “Quero deixar bem claro que eu não sai do Slipknot”, disse ele. “Esta banda tem sido a minha vida nos últimos 18 anos, e eu nunca iria abandoná-la ou aos meus fãs. Esta notícia me chocou e me pegou de surpresa.”

Crahan diz a Rolling Stone que a banda não vai comentar por que se separou com o baterista para evitar um “reality show político” e que “as coisas acontecem, as pessoas precisam continuar”, mas ele afirma que ainda tem “respeito” para com Joey, apesar de quais tenham sido as circunstâncias que levaram a mudança. “Dane-se o mundo por não pensar que outros sete bastardos loucos não podem fica acima disso e ir para a guerra”, diz ele.

Para o Slipknot, a decisão também significava encontrar um baterista substituto e rumarem para Los Angeles, enquanto reuniam a coragem de escrever o seu primeiro disco sem Gray e Jordison, dois grandes contribuidores nas composições. Eles fizeram isso com a ajuda de Greg Fidelman, que tinha mixado o Vol. 3: (The Subliminal Verses), de 2004, e que se tornou o co-produtor do .5: The Gray Chapter. Juntos, eles reinventaram Slipknot.

Crahan foi imediatamente doutrinar o novo baterista do Slipknot, voando para o oeste da Cidade dos Anjos, indo em direção a Des Moines e levando-o para o cemitério onde o corpo de Gray está enterrado. “Fiz ele prestar seus respeitos e dizer olá”, diz Crahan. “Eu disse a ele o que iríamos fazer, pegamos um avião e voamos para L.A.” Nas semanas seguintes, tanto Shawn Crahan quanto Chris Fehn ficaram em pé na frente do baterista, gritando com ele e desnorteando-o enquanto tocava. “Eles estavam treinando ele”, diz Fidelman. “Levou um tempo para descobrirmos que Crahan e Fehn precisavam estar lá na frente dele xingando e gritando e fazendo parte disso.”

“Era como se estivéssemos com medo de ficar animados sobre fazer um disco, no início”, diz Taylor. “Lenta, mas seguramente, nós começamos a baixar a guarda no estúdio e chegar ao ponto em que poderíamos ser um pouco mais sociáveis e ter um pouco mais do espírito e do coração aberto.”

Durante a gravação,Clown garantiu que Paul tinha uma presença no estúdio.Ele coloco um baixo Ibanez que tinha pertencido a Paul nomeio da sala de monitoramento – mas “ninguém poderia tocá-lo, porque Paul era canhoto”, diz Fidelman com uma risada – e ele pendurou uma cabeça de javali empalada que se assemelhava ao focinho da máscara de porco do baixista falecido.

“No início, nós estávamos tentando montar o registro sem baixo, só com Jim ou Mick colocando sons adicionais”, diz Fidelman. “Mas eu senti que precisávamos de baixo para fazer parte da trilha básica de um ponto de vista sonoro.” Eventualmente, o grupo encontrou um baixista, cuja identidade, assim como a do baterista , não foi revelada até o momento.

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“Eu estava tentando mostrar que quando você acha que a parte mais difícil é perder alguém, às vezes é ainda mais difícil seguir em frente.” – Corey Taylor

“Eles estavam procurando por ele para preencher um vazio”, diz Fidelman. “Se ele exagerasse, teria trazido mais porcaria para eles lidarem, o que não era o que eles precisavam.”

No geral,Corey e Shawn reconhecem que fazer o .5: The Gray Chapter era uma parte importante do processo de cura da banda.”Isso aconteceu mesmo quando começamos a ter conversas sobre o que tinha se passado individualmente depois da morte de Paul”, diz Taylor. “Quando você está na estrada, você está tão focado nos how – especialmente com a gente, onde cada show é uma maldita guerra – que não tínhamos realmente nos permitido um tempo para a reflexão ou para envolver um ao outro,pessoas lidando com a mesma dor.”

O cantor lembra letras que ele tinha escrito sobre Gray trocando conversas sobre todas as “porcarias negras” que cada músico tinha experimentado. “Isso permitiu que eu, liricamente, chegasse ao ponto de vista das emoções que todos nós sentimos, querendo ou não”, diz ele. “São emoções muito humanas. Coisas como arrependimento, culpa e raiva toda focada em si mesmo, porque você não sabe se havia mais alguma coisa que você poderia ter feito.”

“Eu não acho que eu nunca fui tão honesto”, continua ele. “Eu não acho que eu nunca estive tão introspectivo ou focado. Eu estava tentando mostrar que quando você acha que a parte mais difícil é perder alguém, às vezes é ainda mais difícil seguir em frente.”

Taylor cita “The Negative One” – a faixa espasmódica do grupo, a primeira lançada do álbum – como tendo as mais pesadas e “honestas” letras do álbum – mesmo que elas sirvam como metáfora. “You had to be set free“ (Você tinha que se libertar), ele grita no refrão da canção. “Opposing sides, your choices are the negative one and me” (Lados opostos, suas escolhas são o negativo e eu). Taylor diz que a canção é sobre si mesmo e como ele chegou a um acordo com ausência de Gray e que a impotência que sentiu após a morte dele deixou-o com o que ele chama de “raiva maligna” que aparece na música. “Trata-se de: ‘Por que não pensei em alguma coisa?'”, diz ele. “‘Por que não eu fiz alguma coisa? Por que não tentei ser um amigo melhor, um irmão melhor?’ Você vai ficar noites acordado pensando nessa porcaria. Você tem que virar para si mesmo e dizer: ‘Você pode lamentar por essa pessoa. Pode ficar com essa pessoa no seu coração, mas a vida é a vida. É apenas algo que você não pode controlar.'”

Entretanto, se “The Negative One” foi difícil de trabalhar, Corey diz que a canção do The Gray Chapter que ele é mais cauteloso em cantar ao vivo é a balada sentimental de hard-rock “Goodbye”. O refrão da canção diz: “A long time ago, we believed that and were united/So the last thing on earth I am ready to do is say goodbye” (Muito tempo atrás, acreditávamos e estávamos unidos/Então a última coisa no mundo que eu estou pronto para fazer é dizer adeus).Quando Shawn Crahan ouviu pela primeira vez, ele interpretou no sentido de que Taylo restava saindo. “É assim que todos nós estávamos no emocional”, diz o percussionista. “Você nunca sabe quando alguém só vai jogar os braços para cim ae dizer: ‘Acabou!” Mas não era disso que “Goodbye” tratava.

“É sobre o dia em que perdemos Paul”, diz Corey. “É especificamente sobre estarmos sentados em minha casa duas horas depois de termos descoberto, apenas em estado de choque, completamente entorpecidos e, em seguida, completamente sobrecarregados com o que estávamos lidando. É uma música pesada, e é um nível totalmente diferente para a banda.”

No final, o Slipknot criou o álbum mais multidimensional de sua carreira de quase 20 anos. Canções como “Goodbye” e “Skeptic” prestam homenagem ao seu companheiro falecido, e batidas raivosas como “Custer” e “Sarcastrophe” colocam fogo em todos as rodas habituais de headbangers, enquanto ainda mantêm o peso emocional do LP. Eles podem ter passado por quatro anos de luto e decisões difíceis, mas a banda conseguiu realmente se reinventar.

No final desse mês de outubro, o Slipknot será a atração principal do seu próprio festival de música: o Knotfest, um carnaval de três dias em um acampamento em San Bernardino, Califórnia, que contará com grupos como Danzig, Anthrax e Carcass, com direito a tirolesa, artistas em perna de pau, e também – se obtiverem permissão para isso – tambores de óleo cheios queimando cocô de camelo. Crahan compara o festival com uma versão do grupo para o Lollapaloozas que ele foi no início dos anos noventa, e o evento vai proporcionar um local adequado para as primeiras interpretações de muitas das novas canções.

Quando eles finalmente começarem a sua devastação no palco do Knotfest e na sua turnê de outono com os fiéis companheiros de nu-metal do Korn, sua filiação contará com muitas das mesmas máscaras grotescas que primeiro cativaram os metalheads há 15 anos. Mas o que não será visível é o quanto eles são agora um grupo mudado, conscientes de sua própria fragilidade.

“Quando éramos mais jovens, nos subestimávamos”, diz Taylor. “Nós não nos permitimos – por falta de uma palavra melhor – amar uns aos outros. Nós amamos o que fizemos juntos, mas nós não nos permitimos apreciar uns aos outros pelo que somos individualmente. Aprendemos da pior maneira que você pode se pintar para fora do quadro, se você não é da família. Acho que essa é a maior maneira que nós mudamos. Nós começamos a ouvir em vez de gritar. Nós começamos a estender a mão e mostrar apreço um pelo outro, enquanto que antes poderíamos ter sido um pouco orgulhosos, um pouco teimosos. Perder Paul nos balançou até nossas bases, mas felizmente essa base se manteve.”

“Nós não percebemos que estávamos subestimando nosso tempo com Paul”, diz o cantor. “Eu serei amaldiçoado se eu fizer isso com esses caras.”

Fonte: Rolling Stone